Domingo, Novembro 22, 2009

A cera e a sereia

Cronópios de classe média armam tenda no esgoto: dançam, em pares, com o cheiro; se vêem n'água preta como nunca tinham antes.

Catam os restos da festa, ou não catam; voltam pra casa melhores.

Voltam – não se tem notícia de um que dormiu por lá.



Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Só pra surpreender

Minha faxineira veio comentar comigo hoje o quanto gostava de Julio Cortázar.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

Meu primeiro voto...

Meu tão grande envolvimento deixou marcas na memória.

Domingo, Novembro 08, 2009

Click

Amanhã terei 40 anos, acabei de descobrir, quando me toquei que ontem tinha 17.
Daqui até lá, faltam os mesmos anos que passaram desde então.

Passé composé.

Sábado, Novembro 07, 2009

Seguindo com a série Casa Claudia


O casulo aberto
foto (c) Dudu Pinto Lindo

A pig, on a cage, on antibiotics

I
Sexta-feira – delícia! Vamos fazer feira.

Um gozo pequeno e inesperado: hoje é sexta-feira, posso fazer feira; posso acordar amanhã cedo e arrumar a casa. Também um choque: que animal domesticado eu me tornei, sonhando com a liberdade da sexta à noite no Atacadão?

No Atacadão, porque é mais barato, com as lâmpadas fluorescentes, os donos de lanchonete, as famílias da periferia e baldes de 10kg de maionese.

II
Sexta-feira – delícia! Vamos sair.

O gozo de sempre: alucinógenos legalizados, pessoas, dentes e decibéis. Somente.

No Beco dos Cocos, porque é mais interessante: posso cheirar cocaína no seu carro? Não, não pode, sabe como é, a polícia, adeus.

III.
Sexta-feira – alívio. Vamos dormir.

O gozo pequeno e inesperado de voltar pra guardar em casa os itens supermercados. O mesmo choque: eu deitado na cama, bem protegido e confortado por pacotes de 16 rolos de papel higiênico, 20 sabonetes e 30 barras de cerais.

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Trocando em miúdos

Os seus mesmos tristes, velhos fatos, cujo álbum de retratos hoje ouso enterrar.

*Para Germana Beatriz, presente através do CD de Kyl.


Sábado, Outubro 03, 2009

A quarta foto da mesa...


... um outro casulo...
... e o azul escuro nunca foi tão esplêndido.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Ligando as pontas

Eu vi o meu passado passar por mim

Há meses arrumo essa casa, e o processo continua. O mais legal é reencontrar o passado: objetos, papéis, afetos – preciosidades. Coisas bestas, guardadas quase com vergonha, agora se confirmam grandes, e me dizem: "foi esperto no cuidado, hein, amigo?".

Aí me lembro da conversa-padrão-número-um que uso pra explicar o valor do patrimônio: "Se você não lembrasse seu nome, não soubesse onde estudou, não reconhecesse sua família, você seria você?". Pois bem: cada carta escrita por Mayra, cada origami dado por Jarbas, cada cristal roubado do hotel de Viena (só pra ficar nas coisas menos óbvias) me faz mais eu. O mais incrível: é confortável.

Aí em cima, mesmo, vai um carvão sobre cartolina que fiz no Fenart-2000. Deixei-o 9 anos guardado, enrolado num casulo, respirando baixinho – e agora preparo o reencontro, ele de asas abertas sobre a minha cama.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Sobre o nível de civilização local

1) Lido diretamente, no meu cotidiano, com um Anailson, um Ademilton, um Adebaldo e um Adlênio.

2) O que se vende nos chamados "cafés" como sendo cappuccino é um pó doce e achocolatado ao qual adicionam água quente, sem se dar nem ao trabalho de dissolvê-lo por completo -- talvez pra provar que a gosma resultante é "do cappuccino legítimo, aquele do pó".

3) Nada é mais difícil do que encontrar manjericão fresco no supermercado.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

Para o anônimo do post de 19 de setembro

Caro anônimo:

Não sei se você é o mesmo anônimo de outros comentários anteriores, mas gostaria de saber seu nome, e se te conheço, e se você conhece meus amigos. Não deve conhecer, porque, se conhecesse, saberia que não, eles não me chateiam dizendo que gostam de alguma coisa que escrevi.

Mas é preciso ir um pouco mais fundo nisso: tem muitos posts aqui sem uma pretensão estética maior. É claro que tantas flores e tantos lamentos querem ser bonitos, mas querem, também, e muitas vezes querem, principalmente, registrar momentos para dar-lhes um pouco de sentido e permanência, calando um pouco a dor, pelo compartilhamento. Assim, ver os comentários repetidos é ver de novo a mesma sintonia, e é bom saber, dos amigos, que eles não esperam uma acrobacia nova a cada dia. Porque nem sempre (e ultimamente, muito pouco) eu tenho isso pra dar.