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Daqui até lá, faltam os mesmos anos que passaram desde então.
Passé composé.
Degredo de mim mesmo.
I
Sexta-feira – delícia! Vamos fazer feira.
Um gozo pequeno e inesperado: hoje é sexta-feira, posso fazer feira; posso acordar amanhã cedo e arrumar a casa. Também um choque: que animal domesticado eu me tornei, sonhando com a liberdade da sexta à noite no Atacadão?
No Atacadão, porque é mais barato, com as lâmpadas fluorescentes, os donos de lanchonete, as famílias da periferia e baldes de 10kg de maionese.
II
Sexta-feira – delícia! Vamos sair.
O gozo de sempre: alucinógenos legalizados, pessoas, dentes e decibéis. Somente.
No Beco dos Cocos, porque é mais interessante: posso cheirar cocaína no seu carro? Não, não pode, sabe como é, a polícia, adeus.
III.
Sexta-feira – alívio. Vamos dormir.
O gozo pequeno e inesperado de voltar pra guardar em casa os itens supermercados. O mesmo choque: eu deitado na cama, bem protegido e confortado por pacotes de 16 rolos de papel higiênico, 20 sabonetes e 30 barras de cerais.
Há meses arrumo essa casa, e o processo continua. O mais legal é reencontrar o passado: objetos, papéis, afetos – preciosidades. Coisas bestas, guardadas quase com vergonha, agora se confirmam grandes, e me dizem: "foi esperto no cuidado, hein, amigo?".
Aí me lembro da conversa-padrão-número-um que uso pra explicar o valor do patrimônio: "Se você não lembrasse seu nome, não soubesse onde estudou, não reconhecesse sua família, você seria você?". Pois bem: cada carta escrita por Mayra, cada origami dado por Jarbas, cada cristal roubado do hotel de Viena (só pra ficar nas coisas menos óbvias) me faz mais eu. O mais incrível: é confortável.
Aí em cima, mesmo, vai um carvão sobre cartolina que fiz no Fenart-2000. Deixei-o 9 anos guardado, enrolado num casulo, respirando baixinho – e agora preparo o reencontro, ele de asas abertas sobre a minha cama.